CONTOS

   Não sou desenhista, mas vou tentar arranhar como escritor. Escrevi uns CONTOS com as personagens que mais gosto, e coloquei para a galera ler e copiar se quiser. Escrevam e digam o que acharam. O uso dos personagens foi autorizado por seu criador, que também leu os contos antes de serem postos aqui, e fez correções dos errinhos que somente quem bolou  os personagens podia saber.

      Quem quiser enriquecer a página com mais contos com Velta, Nova, Homem de Preto e outros personagens de Emir Ribeiro, me escreva. Os contos passarão pelo crivo do criador deles, e só depois disso será publicado.
                                                                                                                                                              Tito Augusto


Pintura de Emir Ribeiro  retratando sua musa  Velta, sensualíssima

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A  BRUXA  DO MILTÃO

Por Tito Augusto Tavares Melo 

   Kátia Maria Farias Lins terminara a sempre terrível prova de matemática. Era a matéria mais dificultosa, mesmo para uma garota inteligente como ela. Felizmente era a última aula, e  poderia ir direto para casa. Ops ! “Felizmente” não era bem o termo, porque a tarefa de sempre ainda devia ser feita. Fazer o almoço. O salário de aposentado do pai dela nunca foi o bastante para poder pagar uma empregada doméstica ou uma cozinheira. Com o dinheiro ganho no escritório de detetives, ela mesma poderia pagar, mas se fizesse isso iria denunciar o seu trabalho secreto para o taciturno pai. Pior ainda seria se ele soubesse que sua filha é Velta, a detetive particular que adora andar vestida de roupas com pouco pano. O barraco que ele armaria seria dos mais escandalosos.

   E assim, Kátia é obrigada a fazer todo o serviço caseiro, para manter sua outra atividade secreta.

  Kátia toma o ônibus com mais algumas colegas do colégio. Durante o trajeto, seus olhos já treinados a situações anormais e policiais, percebem um movimento suspeito numa casa ao lado. O ônibus continua rodando, e ela se vira tentando ver algo mais, mas não consegue ver nada. O jeito é descer e ir caminhando para o local suspeito. As colegas estranham.

   - Ei, Kátia. Não vai para casa ?

   - Vou. É que lembrei de uma coisa que tenho de resolver. Até amanhã, meninas. 

   Com a bolsa presa às costas, e parecendo uma colegial comum, Kátia Maria vai em direção da casa.

   - Se o Gil estivesse aqui ia dizer para eu não me meter nisso, pois não vou ganhar nenhum centavo. Mas não dá para ignorar, se posso tomar alguma atitude e ajudar alguém.     

   Diz ela em pensamento.

  Aproximando mais, já percebe barulho de vozes nervosas. Estava certa. Algo está acontecendo naquele bairro. Da casa onde ela vira a movimentação suspeita, sai um sujeito sujo e mal-encarado, camisa meio aberta, por onde pode se ver uma arma na cintura. Algumas pessoas olham e se afastam com medo. Uma mulher de cabelos encaracolados cruza com Kátia e avisa.

  - Ei, moça. Melhor não ir por aí. O Miltão bebeu de novo.

  - Miltão ? Eu sei lá quem é Miltão.

  - Sorte sua. Eu avisei.

  Pelo sim e pelo não, Kátia atravessa a rua e deixa o arruaceiro passar sem cruzar com ela. Quando o cara se distancia mais, ela corre para a casa de onde ele saiu, e pula o muro baixo num único salto. Entra perguntando.

  - Oi. Tudo bem por aí ?

  Uma voz chorosa responde. - Vá embora, por favor. Ele vai voltar.

  Colocando o rosto na janela, Kátia vê uma mulher mal vestida, com roupas rasgadas e com hematomas nos braços e rosto, sentada numa cama.

  - O que houve ?

  - Ele me bateu de novo. Não se conforma com a separação. Vá embora ou ele bate em você também. Está armado. Está sempre armado.

  - Deixa comigo, senhora. Vamos dar uma lição nele e mandar o cara para a cadeia. Eu vi uma pessoa ali que vai lhe ajudar.

  - Quem ?

  - Velta .

  - Mas eu soube que ela é detetive particular e só faz trabalhos sendo paga.

  - Mas ela gosta de ajudar as pessoas, quando elas não podem pagar. Vai por mim. Ela vai vir ajudar. Aliás, me contou o plano.

  - Que plano ?

  - Vou contar, mas a senhora tem de fazer exatamente como ela me disse, está certo ?

  - Tá. Não tenho mais para quem recorrer...

 

  Pouco depois, Miltão volta para a casa de sua ex-mulher Joana, depois de ter  tomado mais um porre no bar da esquina.  

  - Mulher, vou te encher de porrada de novo. Ou você volta para mim ou eu te mato.

  A mulher aparece com as roupas trocadas, e com ar de superioridade,  diz.

  - Olha aqui, Miltão. Para mim chega de suas surras. Eu achei um livro de bruxaria  que ensina a matar gente sem encostar a mão. Já cansei de apanhar de você. Se você não parar, vou usar feitiços em você.

  - Feitiços ? Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ficou doida, mulher ? Mas doido também apanha. Vou te sentar a mão na cara.

   Miltão ergue o braço para bater em Joana, mas de repente, alguma coisa estoura na mão dele e sai fumaça. Miltão grita.

  - Aaaaaaiii. Que porra é isso ? Minha mão tá queimada.

 - Eu disse e você não quis me ouvir. É o feitiço do livro da bruxa.

 - Ah, é ? Então quero ver se bruxaria vai livrar você de chumbo.

 Miltão saca do revólver e aponta para Joana, mas novo estouro lhe acerta a mão e ele larga a arma.

 - Aiiiii. Minha mão está despelada de queimadura. Que diabo é isso ???

 - O Feitiço. Eu lhe disse. Cada vez que você tentar me bater, vai sofrer uma queimadura de um raio vindo do céu.

 Miltão começa a ficar com medo, mas ainda tenta dar uma de machão.

 - Já que não posso chegar perto de você, vou jogar pedra e lhe apedrejar.

 Novamente, a tentativa de agressão acaba mal para Miltão. Dessa vez, uma das pedras que ele pega para atirar na mulher, explode em muitos pedaços.

 - Tisconjuro, diabo. A mulher virou bruxa mesmo. Vou dar o fora.

  Miltão sai correndo apavorado, mas enquanto corre, novos pequenos raios vindos não se sabe de onde, causam explosões e queimaduras no arruaceiro. Ele sai pulando e gritando a  cada novo estalo. Até que finalmente desaparece das redondezas e não volta mais.

   Joana está morrendo de rir com o jeito ridículo que Miltão fugiu dali. Ela entra na casa, onde está escondida uma gatíssima e alta loira. Velta também está sorrindo muito com a artimanha que bolou.

  - Muito obrigada, Velta. Você botou Miltão para correr com esses seus raios, e ele nem soube de onde saíram. Pensou que era mesmo bruxaria minha. Duvido que ele volte mais. Vou ficar lhe devendo essa, mas eu nem tenho como pagar.

  - Esqueça. Eu me diverti muito. Agora, quero só pedir um favor. Entre em casa e vá para a cozinha. Eu preciso fazer uma coisa e depois vou embora.

  - Ah ! Quer ir ao banheiro, não é ?

  - É. É isso. Depois eu vou embora.

  Velta entra num banheiro pequeno demais para ela.

  - Nossa ! Que miséria. Nem se compara com o da minha casa. E olha que a minha é casa de pobre. Vou logo me transformar em Kátia, senão não conseguirei fazer o almoço em tempo.

  Pouco depois, é Kátia quem sai do banheiro, e vai embora da casa de Joana, indo direto para a parada de ônibus.

   Missão cumprida.
                                                                                                             FIM